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Artigo retirado do Correio do Povo.

PORTO ALEGRE, DOMINGO, 21 DE ABRIL DE 2002

Juremir Machado da Silva

O GOZO DAS MÁS LÍNGUAS

A inda existem críticos que elogiam um escritor considerando-o um 'mestre da língua'. Até aí, tudo bem. Em literatura erótica, pode ser um trunfo. A coisa se complica quando vem a precisão: 'Conhece como ninguém a nossa gramática'. Isso existe. Os guardiões da língua (nomeados por quem?) adoram desqualificar alguém com um muxoxo: 'Esse cara fala a nível de e ainda quer ser bacana'.

O argumento dos puristas é o da precedência, da origem, do antes era assim, pomposamente convertido, às vezes, em 'de acordo com a etimologia'. As línguas, como se sabe, são convenções. Não há lógica nem direito estabelecido. Em português, 'mais grande' é erro; em francês, não. 'A nível de' comunica tanto quanto 'em nível de' e vai ganhar a guerra, ainda mais com a ajuda de intelectuais e de petistas.

Um dos argumentos mais risíveis dos puristas menos cultos, mas mais enfezados, é o 'essa palavra não existe'. Não está no dicionário. Ora, os dicionários coletam o que está nas bocas e nas ruas. Para ser mais rico do que o seu concorrente, um dicionário se apressa em catalogar tudo o que encontra pela frente. Logo legitima o que já estava legitimado. Assim, o que não está no dicionário hoje, estará amanhã. De resto, qual o poder de quem cataloga?

O purista simplório toma o dicionarista por autoridade máxima, quando este, muitas vezes, é apenas um colecionador de borboletas. Ninguém mais vai dizer duzentos gramas. E isso não tem a menor importância. Ninguém mais vai usar mesóclise e isso só vai nos tornar mais fluentes. Que me desculpem os professores tradicionais de português, mas a incorreção é fundamental.

Existem casos em que o ritmo de uma frase, a elegância e a harmonia exigem que se coloque um pronome antes ou depois de um termo, o que evita cacofonia ou incompreensão. No resto, tanto faz se o pronome vem antes ou depois disso ou daquilo. Por que 'diga-me' é mais culto e nobre do que 'me diga'? A resposta está no que os especialistas da área sabem e aparece condensada num livro mais geral, de sociologia, 'A Distinção', de Pierre Bourdieu. A língua também é um campo de luta pela distinção social. Quem pode mais, erra menos.

Até aí morreu o Neves, diria o outro. O essencial, porém, é que agora é tarde e Inês é morta: ninguém vai parar o trem da língua para enfiar o pronome no lugar certo. Os melhores escritores são os que conhecem tudo de uma língua para melhor deturpá-la. A língua é o único campo de desobediência civil total. As autoridades nunca conseguirão amordaçar as bocas para impedir que o presente lamba o passado e o cuspa no futuro.

Nisso não está embutido um elogio da demagogia. É melhor saber do que não saber, principalmente quando se vai disputar um lugar ao sol. Na verdade, só tem direito de entortar a língua quem pode falar de boca torta. Os outros, deserdados da sociedade, nem sabem que estão errando. Do ponto de vista do vernáculo, ninguém fala corretamente. É impossível. Por isso os imortais vivem de boca fechada.

A literatura brasileira é, em geral, ruim porque os escritores apostam muito na correção gramatical, ainda que fiquem longe do acerto. Falando nisso, essa história de 'por que', 'porquê', 'porque' e 'por quê' é uma grande balela. Um só resolveria tudo. Existe muita coisa artificial na correção. Onde e aonde só fazem sentido nas gramáticas e nos livros de vulgarização.

Os cariocas, por exemplo, costumam misturar a segunda e a terceira pessoas do singular: 'Vou dizer para você: eu te amo'. Que horror! Nada disso. Funciona muito bem. A língua é barroca. Adora misturas. Os gaúchos dizem 'tu vai'. Já é tempo de se aceitar essa amputação. Afinal, 'tu vais' soa pedante e lembra pobre querendo ser culto. Só não dá para suportar a mutilação do plural: 'Um chopps e dois pastel'. Aí dói. Por enquanto.

Nessa altura, alguém pode perguntar: mas quem vai reger essa esculhambação. Ninguém. E todos. Já é assim que acontece. A verdade da língua é como um empurra-empurra num ônibus. Sempre tem alguém metendo os cotovelos para arranjar um lugarzinho. Outros, não conseguem embarcar. Na próxima parada, tudo recomeça. Entre o inaceitável no padrão culto (nós vai) e o que vai ter de ser engolido (a nível de), a distância é uma guerra permanente. Vence, na hora certa, quem fala mais. Mas não necessariamente melhor.

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