O mito o mito do sangue, o novo sacramento secular da raça não pode
ser criado; trazê-lo de volta não é uma necessidade, mas uma experiência.
Alfred Rosemberg O Mito do Século 20, 1930
Os cristãos dos primeiros tempos e os bizantinos chamavam-na de crux gammata, utilizando-a principalmente como elemento decorativo. Mas não foi por intermédio deles que essa cruz singular, com seus quatro braços girando no espaço, maldita para o homem contemporâneo, chegou à Áustria. Supõe-se que isso teria sido obra dos cruzados germânicos, ao tempo do reino de Leopoldo III, o Santo (1095-1136), que a trouxeram para o coração da Europa diretamente do Oriente Médio.
Disseram a eles que era a suástica (do sânscrito svastika), a cruz dos ários, um dos símbolos favoritos do povo que invadiu a Índia em tempos imemoriais. Ostentavam-na como sinal de distinção de casta. Eles, os ários, eram a raça superior; os indianos, os dominados, os inferiores.
O sucesso dela entre os austro-germanos foi duradouro. Desde o século 8, quando Carlos Magno criou a marca do leste (Östmark), eles assumiram a função de serem um bastião da cristandade nas margens do Rio Danúbio, defendendo-a dos eslavos ainda entregues ao paganismo. Primeiro marquesado, depois ducado, e finalmente Reino do Leste (Österreich), os austro-germanos aos poucos espandiram-se para os lados da Polônia, da Hungria, da Boêmia e da Croácia, formando o que mais tarde veio a ser o império dos Habsburgo (1282-1918).
Minoritários na Mittel-Europa, os austro-germanos mimetizaram os ários da Índia colocando a suástica (Hakenkreuz em alemão) acintosamente nos frontões dos seus castelos e fortins para mostrar aos demais grupos étnicos quem eram os donos da região. Era o escudo da Deutschtun, da germanidade, afincada nos Alpes austríacos.
Virou uma das preferidas do jovem
Hitler em Viena. Deu no que deu
A chegada das tropas de Napoleão em Viena em 1806, trazendo na mochila manifestos irreverentes e igualitários, desativou a cruz gamada. Tornaram anacrônico o ícone dos racistas. Mesmo os mais empedernidos conservadores, como o príncipe Metternich o arquiteto da reacionária Santa Aliança, a coligação dos reis que perdurou de 1815 a 1848 , sabiam que travavam uma batalha defensiva contra o liberalismo democratizante que difundiu-se pela Europa ao longo do século 19.
O racismo dos austro-germanos, porém, não deu-se por vencido. Se a nobreza do império dos Habsburgo, abalada pela revolução de 1848, não tinha mais fibra para exibir ares de casta, o mesmo não se deu com os líderes populistas que proliferaram no final do século 19. A fobia deles não era somente os eslavos, mas também os judeus.
Acusando a decadente monarquia austríaca de ser pró-eslava e protetora dos semitas, Georg Ritter von Schönerer, um demagogo racista, anunciou em 1882 um programa em Linz (cidade onde Hitler adolescente irá passar uns anos) em favor do trabalho artesão e da pequena propriedade, ameaçados pelo dinheiro judeu. Defendia até uma lei de exclusão para isolá-los. Schönerer, proclamando-se Führer, tentou fazer do anti-semitismo e do ódio ao eslavo um movimento popular, de massas. Com ele o preconceito deixou os salões da nobreza e ganhou as tavernas do subúrbio. Resultou que o primeiro prefeito de Viena eleito por voto direto em 1897 foi o popularíssimo anti-semita Karl Lueger, que fez campanha para liberar o povo cristão da opressão judaica.
Em 1905, a suástica voltara à moda na Áustria. A revista Ostara, dirigida por um excêntrico monge chamado Börg von Liebensfelds, colocou-a permanentemente na capa. O conteúdo era xenofobia pura. Em meio a delírios de superioridade racial ariana, mesclado a fobias aos casamentos mistos, o periódico pregava a esterilização e até o extermínio em massa de eslavos e de judeus. Virou uma das preferidas do jovem Hitler em Viena, que procurou Liebensfelds no seu bizarro castelo de Burg Werfenstein atrás de números atrasados. Deu no que deu.
Pois agora, justo na entrada do novo milênio, quando acreditava-se que a maligna cruz desativara-se para sempre sepultada há mais de 50 anos em baixo das ruínas do 3º Reich e dos milhões de cadáveres que ela vitimou , seus tétricos braços voltam a movimentar-se. Parecendo mãos de defunto sepultado vivo, removendo o pavoroso entulho de cima de si, a suástica ressuscita nas terras da Áustria e, com sua voz cavernosa de coisa do além, ruge Heil Haider! Heil Haider!