Não é muito fácil entender o que se passa na Áustria, ou seja, o fato de que um partido de extrema direita, com discurso de forte acento nazista, tenha subido ao poder.
A perplexidade deve ser sobretudo grande entre os que gostam de tudo explicar pelos parâmetros econômicos e estatísticos. A Áustria é um dos países de economia mais próspera e estável da Europa. Para um índice 100 correspondente à média européia, a Áustria chega a 112, a Alemanha a 108 e a França a 104. O desemprego mal atinge 4,4% da população economicamente ativa, acima apenas da Holanda e de Luxemburgo. Prevê-se para este ano um crescimento do PIB de 2,8%, o mesmo dos demais países da União Européia.
O sistema de seguridade social é dos mais generosos da Europa. Não há remota semelhança entre a situação da Áustria de hoje e a da Alemanha da ascensão do nazismo, mergulhada no caos econômico e no desemprego em massa.
O que há de comum entre os atuais extremistas austríacos e os nazistas é um nacionalismo fanático. Mas enquanto na Alemanha o nacionalismo era anti-semita, na Áustria seria apenas xenófobo. A principal ameaça não proviria dos judeus, mas de trabalhadores imigrantes, oriundos da África ou do Leste Europeu. A União Européia e a globalização, inexistentes no tempo de Hitler, são também alvo dos extremistas austríacos.
Note-se que a xenofobia não é fenômeno exclusivo da extrema direita austríaca, mas de toda a extrema direita da Europa ocidental hoje integrada na União Européia. Mais, em toda esta Europa, a extrema direita nacionalista e xenófoba não cessa de crescer. Suas bases sociais e eleitorais são os operários e os jovens, como aconteceu no nazismo. Aparentemente, a nova extrema direita européia, à diferença da nazista, não culpa os judeus por todos os males.
Não que sejam inocentados. Mas a principal responsabilidade recai sobre os trabalhadores imigrantes. Assim esta direita não seria racista, mas xenófoba.
Sucede que o que a extrema direita austríaca hostiliza são minorias etnoculturais, basicamente africanos e eslavos. Xenofobia é na verdade eufemismo de racismo, termo evitado porque universalmente estigmatizado.
O racismo é fenômeno
característico da cultura ocidental
O racismo é fenômeno característico da cultura ocidental. A bem dizer, trata-se de invenção dos próprios europeus, que o praticaram historicamente não só na própria Europa, como em todo o mundo onde exerceram influência depois dos descobrimentos.
Erroneamente, embora compreensivelmente, depois do Holocausto muitos judeus criaram a impressão hoje muito difundida de que racismo é sinônimo de anti-semitismo e de que só eles foram vítimas. É certo que durante séculos os judeus foram as principais vítimas do racismo europeu, mas não as únicas vítimas.
Modernamente, os primeiros a sofrerem os horrores do racismo europeu, fora da Europa, sob a forma de genocídio insana manifestação homicida do racismo , foram milhões de ameríndios. Os europeus legitimaram a caça de negros na África e sua redução à escravatura, com o argumento de que não se tratava de seres humanos, ou, na melhor das hipóteses, eram seres inferiores. O primeiro genocídio praticado pelos alemães foi em 1912, contra os hereros da sua colônia no sudoeste da África, hoje Namíbia. Nas Américas, os europeus criaram sociedades estribadas na segregação e na discriminação de não-brancos (índios, negros, mestiços). Daí que na América Latina a vida seja infame para não-brancos, mas afortunada para descendentes de europeus.
O racismo europeu é fenômeno acima de tudo cultural. Ao contrário do que parece à primeira vista, não tem causa econômica ou social. Mas constitui a típica reação européia a crises econômicas e sociais. Consiste na propensão a ver a solução desses problemas na perseguição a minorias etnoculturais. São os bodes expiatórios.
A animadversão européia aos trabalhadores imigrantes é cínica e contraditória. Pois os europeus emigraram em massa para outros países, mais do que povos de qualquer outro continente. A bem dizer, esta emigração em massa foi, na história moderna, fenômeno exclusivamente europeu.
Uns emigraram para colônias que haviam sido estabelecidas a ferro, fogo e sangue (Inglaterra, França, Holanda, Bélgica etc). Os que não possuíam colônias (Alemanha, Itália etc) emigravam para outros países. Só na segunda metade do século 19, mais de 50 milhões de europeus emigraram para as Américas. Através da emigração, a Europa exportava seus desempregados, como fazem hoje a Europa oriental, a África, a Ásia, a América Latina.
O caso austríaco demonstra que os europeus não têm jeito. Todo cuidado com eles é pouco, já que sempre se pode esperar o pior do seu maldito e incurável racismo.