Artigo de Nelson Motta na coluna do "Manhattan Connection" 02 de agosto de 1998
 Seios e famíliasOs muito americanos que me perdoem, mas Europa é fundamental. Sem cultura, educação e gosto ficamos reduzidos a consumidores de bens e entretenimento e ganhadores de dinheiro. Depois de um mês entre Paris e Florença, de volta aos Estados Unidos, a sensação é de atraso. Êpa! Mas é isto mesmo, uma espécie de atraso existencial, comportamental, social e político dentro do progresso tecnológico e da prosperidade econômica. No reencontro com a televisão americana, seus talk shows, seus sit-coms, sua vulgaridade moralista, lendo os jornais e as revistas que antes de dar a idade de uma pessoa informam quanto ela ganha, vivendo o dia-a-dia da cidade... Oh my God! Que mentalidade! Giuliani declarando guerra ao sexo, prendendo prostitutas e fechando topless bars, Clinton em palpos de aranha com Monica Lewinsky, mais do que nunca ameaçado de impeachment, o filme "Lolita", mesmo cortado, não vai ser exibido em cinemas, só num canal de TV a cabo, a maioria dos comerciais do horário nobre nas grandes redes é de comidas, automóveis e remédios - e os europeus (e até brasileiros) riem de tudo isso. E alguns americanos mais espertos também. Para não chorar. O desfile de Saint Laurent antes da final da Copa do Mundo provocou um escândalo na televisão americana: oh! algumas modelos usavam roupas transparentes, oh! viam-se peitos de mulheres, shit!, imediatamente a transmissão passou a ser atrasada em dois minutos para que houvesse tempo de editar outras possíveis manifestações de nudez, pecado e devassidão. Para não ofender a família americana. Seios que crianças e adultos europeus estão acostumados a ver na praia, que brasileiros de qualquer idade estão carecas de ver na TV em qualquer horário, provocam o horror e a comoção no, sorry, seio da família e nos guardiões da moral americana. Na terra de "Playboy" e do silicone. Ou talvez por isso mesmo. É triste, mas não é engraçado? Por outro lado, no lado de baixo, no lado de dentro, no lado escuro, na vida real, quanto mais repressão mais perversão, mais devassidão, mais violência sexual, mais sexo virtual, mais sexo falado, mais sexo pago: menos prazer e alegria de graça. E não há nada de engraçado nisso. |