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Artigo retirado do Caderno G da Gazeta do Povo

Curitiba, 7 e 8 de Novembro de 1998.
Sábado e Domingo

Carlos Dala Stella

Curitiba para os curitibanos

Soaria como uma heresia dizer que a capital ecológica do país é uma cidade chata. Melhor dizer que ela é, às vezes, maçante. Nos domingos à tarde, por exemplo, quando toda a população gastronomicamente ativa parece ter almoçado polenta e frango - a 10 reais por cabeça! - em Santa Felicidade, ou peixe na Mateus Leme, ou espeto corrido nas churrascarias da Av. das Torres. Mas isso parece implicância, afinal é difícil, especialmente para um curitibano, imaginar uma cidade onde os domingos à tarde não sejam chatos.

Essa cidade talvez seja maçante, então, porque a sala onde a maioria das famílias mais tarde se reúne, para assistir ao Fantástico, está invariavelmente decorada com os mesmos móveis e os mesmos quadros? Em que outro lugar é hábito largamente difundido combinar o sofá da sala, enfeitado com as inevitáveis almofadinhas de bico, com um quadro da mesma cor, e de qualidade duvidosa?

É inegável reconhecer que, com insignificantes variações, os móveis, objetos e quadros são iguais aos encontrados na maioria das casas e apartamentos da nossa orgulhosa classe média. E o morador pode ser tanto um contador como um esclarecido professor universitário, um lojista ou um vaidoso profissional liberal. Mas também a isso se poderia protestar, acrescentando que esses hábitos pertencem à classe média brasileira, não sendo privilégio nosso.

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Mas e as praças? Cada vez mais enfeitadinhas com postezinhos, relojinhos, arquinhos, canteirinhos de florezinhas, tudo muito limpinho. A não ser pela pobreza e indigência dos únicos que se atrevem a sentar nos bancos de madeira: os mendigos, os desempregados, os vagabundos, numa espécie de resistência surda à "revitalização" dos espaços públicos - que mais parece estratégia de expulsão dos pobres e marginalizados para a periferia. Por que raramente uma mãe comendo um sanduíche com o filho? Onde um senhor respeitável lendo um livro? Nenhum casal de jovens namorando na grama? Melhor preservar o decoro, o respeito.

A bola da vez é a Praça Osório, que graças à intervenção oficial há algum tempo organizou o serviço dos engraxates, enfileirando aquelas cadeiras vermelhas horrorosas, mas que também expulsou dali os meninos que viviam desse ofício, com suas prosaicas caixinhas de madeira. Se pelo menos eles estivessem na escola, mas é mais sensato acreditar que eles fugiram para a Tiradentes, para a Carlos Gomes.

Com a divulgada instalação de um café, próximo ao chafariz, mais do que oferecer um serviço o que se conseguirá é expulsar dali os hippies, que expõem produtos artesanais e balangandãs na calçada, como também as prostitutas ocasionais, os desocupados, os bêbados.

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Não que não interesse a essa cidade resolver seus problemas sociais, mas parece que ela prefere fazê-lo varrendo para a periferia a miséria, como quase todas as grandes cidades brasileiras fizeram. E nisso ela não demonstra a mesma criatividade que a tornou famosa por seus parques, pelo programa diferenciado de coleta de lixo e pelo sistema integrado de transporte coletivo. Se por um lado essa estratégia de exclusão mantém a imagem de paraíso urbano, por outro ela acentua ainda mais a desigualdade social.

A despeito de toda a propaganda, é difícil acreditar que a rua da cidadania descentralizou serviços essenciais, que os postos de saúde vão além de cuidar de gestantes, medir a pressão e distribuir alguns remédios, que os faróis do saber alteraram o perfil cultural da população carente. Quem acredita nisso, sem hesitação, provavelmente nunca pôs os pés nesses lugares, não sabe onde a empregada mora, nem conhece os pontos finais dos ônibus alimentadores.

Quem não ouviu pelo menos uma vez que não se deveria alardear as qualidades da cidade para não atrair bandidos, assaltantes, nordestinos pobres? Afirmações como essa, desdobramento natural da fala oficial, só fazem acentuar a idéia de que Curitiba é uma ilha de prosperidade. Ou os problemas teriam sido herdados de governos anteriores ou sequer seriam nossos, eles viriam de fora.

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É característica da porção provinciana dessa cidade o bastar-se a si própria, atribuir seus erros ao outro, olhar com desdém o diferente, não sem um regozijo mal contido, irônico, cheio de empáfia. Mesmo a indiferença, essa postura inegavelmente cosmopolita, que o curitibano ostenta com tanto garbo e desenvoltura, não passa de uma farsa. É preciso morar alguns anos aqui para descobrir que por trás dela há o desprezo, a inveja, sempre corrosivos.

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Outro lugar-comum nativo é vender a idéia de que Curitiba é dona de uma arquitetura particular. Naturalmente quem pensa assim não está se referindo aos setores históricos, nem aos remanescentes de um neoclassicismo tanto mais grandiloqüente quanto mais tardio, mas à arquitetura moderna.

No entanto, os marcos de nossa modernidade arquitetônica continuam sendo a residência do arquiteto catarinense Frederico Kirchgassner, de 1929, as residências de Vilanova Artigas, dos anos 40, mais dois ou três nomes, entre eles Ernani Vasconcellos, colaborador de Lúcio Costa. A eles se deve uma arquitetura artística que, embora não tenha despertado interesse algum em sua época, é precursora não dos arquitetos paulistas e cariocas que trabalharam aqui na década de 50, mas dos escritórios de arquitetura dos anos 60 até metade dos anos 70. Nomes como Rubens Meister, Forte/Gandolfi, Domingos Bongestabs, Léo Grossman e Alfred Willer deram conotação paranaense ao estilo de Le Corbusier e Oscar Niemeyer. Talvez não seja exagero dizer que essa é a única contribuição criativa da arquitetura moderna de Curitiba ao modernismo brasileiro, pelo menos até a década de 80.

Quanto ao "estilo caixote" da fachada do Cemitério Municipal, do Cemitério Água Verde, das Ruas da Cidadania, da nova Cinemateca e dos portais de alguns bairros, ele é de um evidente mau gosto - além de desmerecer a história do Ippuc, órgão que durante décadas teve uma importância fundamental para a viabilização do Plano Diretor da cidade. Embora dê unidade à arquitetura oficial, o estilo caixote reproduz à perfeição um aspecto cada vez mais evidente da forma Jaime Lerner de governar: a supremacia da imagem - naturalmente forte, prepotente, impositiva - sobre a capacidade de enxergar de fato a realidade multiforme da população. Se na década de 70, devido a certa pujança na transformação do meio urbano, essa postura tingia-se de esquerda, agora ela se mostra com o conservadorismo de direita que sempre a animou.

Com linhas austeras e duras, de forte apelo popular, os mirantes e torres dos parques parecem guaritas, os portais lembram antigas fortificações. Essa imagem de estado bélico, reforçada pela recente instalação de totens da polícia militar em vários pontos da cidade, mais do que proteger a população é o sintoma de que alguma coisa não vai bem. E que o problema não é só a violência, tão evidente aqui como em qualquer outra capital brasileira. Embora tenhamos que conviver com as mazelas nacionais, somos praticamente obrigados a aceitar que a cidade é um reduto de calmaria e paz em meio à tempestade.

Assim como o estilo caixote é composto de colunas que não sustentam peso algum e de arcos que não trabalham, farsa imperdoável segundo o mestre Lúcio Costa, Curitiba vende, e vende caro, uma imagem inconsistente de cidade de primeiro mundo, ao menos questionável.

P.S. - Entre as cartas, fax e e-mail enviados em resposta a essa coluna, uma me chamou a atenção, não porque guardasse alguma particularidade, mas pelo contrário por repetir obsessivamente um traço deprimente do imaginário oficial da cidade, um traço que encontra eco em boa parte da população, um traço nazistóide: o de que Curitiba, e toda a riqueza que esse nome guardaria, é para os curitibanos. Eco, por sua vez, de um slogan do período da ditadura militar: Brasil, ame-o ou deixe-o.

Carlos Dala Stella é artista plástico e escritor.

 

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